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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

FAMÍLIA


No tempo de minha infância,
os poetas eram todos mortos
e os poemas, seus fantasmas,
que só poderiam ser encontrados
em antigos castelos.

Mas, como os livros
têm pernas e desejos,
um dia acabei topando com um,
como uma pedra no meu caminho.

E hoje a poesia me é tão íntima
como um homem e suas memórias.

Às vezes, como quaisquer amantes,
nos desentendemos
e ela me bate na cara,
abandona-me durante várias
noites e dias,
entre a insônia e a febre do álcool,
mas eu não ligo.

Às vezes, como costumam fazer
os amantes,
nos enroscamos
e sobre o papel
de meus velhos cadernos
surgem rebentos,
pequenos poemas,
fadados, sei, a não grandes coisas.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

ALFABETIZAÇÃO

 Anand Borse


Há momentos em que a razão,
nossa tão sensata amiga,
cede ao desespero, embriagada, talvez.

Há momentos em que a dor,
tão necessária para distinguirmos o prazer,
torna-se insuportável, louca, talvez.

Há momentos em que a humildade,
fiel e necessária companheira do orgulho,
desce à servilidade, cega, talvez.

Nesses momentos, é necessário
que o homem pare,
leia um bom livro,
leve uma criança aos braços,
ame uma mulher de textura leve
ou se desespere eternamente.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ÚLTIMO POEMA

(Isadora Duncan - 1877/1927)


Que meu último poema,
depois de tanta vida vivida,
que é o mesmo que dizer:
depois de tanta vida sofrida,
fosse um poema dançante.

Um poema como um corpo
que bailasse livre
de amarras sociais
e da poliomielite.

Um poema com a cara da Isadora Duncan.

Um poema que saísse
alegre e louco
das páginas do livro
mal ouvisse o Lago dos Cisnes
de Tchaicovski
ou um frevo de Capiba.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ÉDIPO


Contemplo longamente a noite,
como a mãe que vela o filho.

As estrelas brilham.
Não há lua
que se derreteu
em leite e melancolia.

Mas o que mais vejo
ou quero ver, na noite,
são teus olhos que não me olham,
mas não apenas eles:
tua boca que não sorri,
teus cabelos de um castanho-do-Pará,
teu hálito que mistura hortelã
e saliva...

O gosto de tua saliva.

Procuro, através do poema,
compor teu corpo,
de fragmentos,
de lembranças,
mas tuas roupas...

És como uma esfinge sob elas,
decifro-te ou não te possuirei.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O FRUTO


O poema caiu de mim-árvore,
madurado,
na época certa da colheita.

Tinha no gosto
o acre de alguns momentos
de desencanto e tédio,
e o doce açúcar de outros,
como um beijo
na boca da amada
ou um amanhecer cor de fogo
com uma leve brisa
que tudo anuncia.

Havia ainda
a leve embriaguez
do álcool ou do sexo.

Ofereço-vos este fruto.

Que a sua polpa dê forças
ao vosso corpo
e suas sementes,
após secas e plantadas,
floresçam,
e que, enfim, a beleza
faça parte de vosso pomar.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

INFÂNCIA

Paulo Talarico


Como é poético
nascer em uma cidadezinha,
cantar a sua cidadezinha.

Como é poético e saudável
morar em uma cidadezinha
onde o café da manhã
nos espera no quintal,
onde os pássaros
substituem os estéreos.

Mas a verdade é que de minha infância
lembro apenas os dias de chuva
e a impossibilidade de me molhar...

De minha infância lembro apenas
o começo da impossibilidade de ser.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

EXISTÊNCIA

 

O amor desabrochou.
Havia no peito a semente seca,
em terra árida.

Mas, com tuas mãos,
reviraste-me
e a água que brotou
dos teus olhos,
inesgotável fonte de beleza,
regou-me,
saciou-me a sede,
encharcou-me o peito e a alma,
fez-me fértil.

Alimentaste-me com tua saliva:
boca a boca.

O amor desabrochou,
maduro fruto, polpa macia.

A seiva do teu ventre e
o sumo do teu sexo fecundaram-me.

O amor renasceu
e a alma, vivente ser, sorriu.

E o corpo, efêmera morada,
novamente deseja o gozo de existir
a cada hora, a cada minuto,
a cada momento, ao teu lado.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A VIDA REVISITADA

Picasso

Sim, tenho saudades da vida
de boêmio que não tive,
da roda de amigos em torno
de uma mesa de um café ou bar
em que o garçom nos reconhecesse
pelo nome e preferência.

Não, não posso revisitar
boas lembranças: amores, literatura,
bebedeiras homéricas.

A minha vida,
vivi-a em repartições públicas,
as minhas lembranças
são arquivos e papéis velhos,
sem sonhos, a não ser o contracheque
no final do mês.

Revisito a minha vida,
a alma mofada,
o arquivo que virou meu coração.
Meu cérebro burocratizou-se.

O sexo... Ah o sexo!
A obrigação do ponto assinado,
sim, foi assim o sexo,
nenhuma aventura...

Quem me dera o fim
do Albino de Nabokov.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

DESCOBERTAS

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Que prazer o pirata Colombo sentiu
ao descobrir as Américas!

Que prazer Santos Dumont,
ao pilotar o sonho de Dédalos!

Que prazer Sabin,
ao descobrir a vacina contra a paralisia infantil!

As descobertas nos renovam
como uma fonte da juventude,
enriquecem-nos
como uma pedra-de-toque,
revolucionam
como o açúcar adicionado ao chocolate,
amargo produto do cacau.

Minhas primeiras descobertas,
junto com a magia do sexo,
foi a possibilidade de escrever e ler.

(Posteriormente descobri o absurdo da vida
e seus labirintos infinitos).

Descobri autores e livros,
dos primeiros os primeiros foram
Manuel Bandeira, Pablo Neruda, Érico Veríssimo.

Dos livros, lembro Clarissa
(quantos mistérios e revelações
para um menino de doze anos);
um livro de um autor alemão
(gritos na escuridão?)
que falava de cinema, sexo, traição
e o inevitável fim de forma patética;
Hélio de Soveral com sua Brigitt Montefort...

A maturidade revelou-me
novos amores:
Borges, Quintana, Ferreira Gullar,
embora os antigos ainda morem
em meu coração e em minha estante.
Atualmente, leio Cláudio Aguiar, Alberto da Cunha Melo e Afonso Romano de Sant’Anna.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

POÇO

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Se me perfuro, jorram versos.
No peito, o poço é profundo,
infinito espero,
que o medo de ficar sedento
é o que agora menos quero.

Hei de querer o mal para mim?
Se o mal não desejo
nem a quem não quero bem?

O poço é profundo, sinto,
e  uma parte é jorrada,
pois da outra me alimento.

Sou mãe de mim mesmo,
pai e criador, assim espero,
de infinitos poemas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O TEMPO


Indiferente às súplicas e aos suspiros,
o tempo vai: cavaleiro andante.

Águas que as mãos,
represa humana, não retêm.

O tempo, que nos afasta
dos espelhos
e nos dá o ar de sérios
e respeitáveis,
envelhece-nos também
para as sacanagens.

Mas o tempo,
longe o fantasma da velhice
com seus achaques
e sonhos despendidos para sempre,
é qual o sono para o cansado
ou o bálsamo para o doente.

O tempo amacia as feridas
que pensamos insanáveis,
o tempo nos aproxima da morte
sem a qual mais absurda seria a vida.