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quinta-feira, 23 de maio de 2019

SEREI SOLDADO CONTRA O FASCISMO

Para Thomas Sankara

Estou pronto para a luta,
a luta a(r)mada.
Cinquenta e três anos,
de indignação e álcool,
são um fermento e tanto.

O recado está dado.
Convoquem-me, sou soldado.
Convoco-vos!

Não tenho armas senão as palavras,
o coração, a vontade e as mãos,
que mesmo limitadas pela pólio
têm sede de justiça.

Faltam-nos alimentos e munição? Mas,
sobram-nos a vontade e a fraternidade.
O homem não vive só de pão,
- embora sem o pão morra, por isso a nossa luta -
mas, também de poesia e sonho.

O sonho é a matéria mais importante do universo.
Na luta, nos superamos, somos a maioria.
Um irmão mais um irmão,
um operário mais um operário,
um injustiçado mais um injustiçado,
são sempre mais que dois.

Eles têm medo, e nós não.
Os burgueses, os militares – não nacionalistas –, os rentistas,
tremem diante da multidão.

Os reis tremem e são guilhotinados.
Os banqueiros fogem feito cães.
Os militares nacionalistas, diante da luta justa,
reforçam nossas trincheiras.
Não ter medo da morte é uma vantagem,
diferentemente dos que só pensam nas recompensas
do dinheiro e do poder.

O canto está cantado.
O poema está feito.
Estamos todos alertas!
Os líderes são os trabalhadores explorados.
Avente exércitos!
Tentaremos, mais uma vez e sempre,
enquanto sonhos existirem,
mesmo que uma nova derrota adie o novo mundo socialista:
que os fascistas não passem.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

O POEMA E A SOLIDÃO

Fazer poemas é uma arte solitária,
e o poeta que não é lido,
disseram-me, a alma vai para o limbo.
Será?

Nunca tive na vida talento para nada,
terei na morte?
Não sei, não sei...
Duvido.

Meu pai me queria doutor,
médico ou juiz,
como são engraçados os pais.

Tornei-me,
para desespero de minha alma,
comunista,
mas nunca tive carteirinha.

Quem recebe a maior maldição,
O comunista ou o ateu?
O alcoólatra ou o poeta?
Sou tudo isso e mais algumas coisas.

Queria-me músico,
não fui, não tinha talento.
Bailarino,
não pude, a pólio não me deixou.
Quantas impossibilidades!

Restou-me, para viver,
ser servidor público: prostituto.
Mas, claro, sempre com a ajuda do uísque.
Calma,  Maiakovski, da vodca também!

Quem não vive sem uma muleta?
Ou sem uma cadeira de rodas?

Cansei da solidão,
vai-te embora poesia! Grito.
Mas ela se faz mouca.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

QUADRILHA

Plagiando Drummond

Itárcio amava Emília que amava Itárcio, mas eram tão crianças.
E o amor não passou de uns verões em Pontas de Pedras.
O tempo, esta quadrilha, roubou-me a inocência.
De Emília nunca mais tive notícias, se casou, se amou, se morreu.
O amor costuma vir visitar-me de tempos em tempos.
Mesmo sem ser convidado, deita-se em minha cama,
abusa de minha intimidade, bebe minhas cervejas, faz dívidas que tenho que pagar.
Ah os agiotas! As amantes e o delírio.
Cansado, acostumou-se a abandonar-me, quando penso que o aprisionei
Será a solidão minha penúltima morada?

quinta-feira, 2 de maio de 2019

AUTORRETRATO

Plagiando Bandeira

Interiorano,
nascido na zona da mata pernambucana,
nunca soube
usar gravata:
- apenas no casamento,
quiçá na morte.
Cidadão do mundo,
odeia profundamente as fronteiras e ama os diferentes.
Poeta? Não sabe, não tem certeza...
Mas insiste.
Funcionário público cheio de poeira,
achou na poesia e no uísque
uma maneira
de respirar sob os escombros
da dita sociedade capitalista.
Quis ser músico, não tinha talento;
guerrilheiro, não pôde,
a pólio o acertou,
qual mercenário estadunidense,
numa esquina mal iluminada,
numa certa manhã de novembro.
Acreditou um dia em Deus, no outro em Nietzsche.
Em matéria de sonho: um suicida profissional.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

quinta-feira, 18 de abril de 2019

quinta-feira, 11 de abril de 2019

CANNABIS

Se todo caminho leva ao mesmo ponto,
por que caminhamos?
E o Coelho Branco responde:
se a vida leva sempre à morte,
por que vivemos?

quinta-feira, 4 de abril de 2019

DESCANSO


Nas próximas férias,
iremos a lugar nenhum.
Pensamos
que desta forma
poderemos nos encontrar.


quinta-feira, 28 de março de 2019

quinta-feira, 21 de março de 2019

MOEDA


Sabe o mal?
Ele é a alma gêmea do bem.
Sabe o bem?
Ele finge não conhecer o mal.


quinta-feira, 14 de março de 2019

À MODA DO CHEF


Como fazer um poema?
Junte todos os ingredientes
necessários
numa panela de pressão.
(Quais?
Descubra-os!
Descubra-se!)
Fogo brando...
Esqueça...
Fume um baseado...
Exploda-se num orgasmo gnóstico.


quinta-feira, 7 de março de 2019

CASULO


Na asa do vento foi-se embora a borboleta.
Na asa da borboleta foi-se embora o meu amor.
Na asa do meu amor não coube a minha dor.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

SERPENTEANDO


No céu da tua boca existem estrelas 
que, apenas minha língua de serpente alada, 
pode alcançar.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A POMBA

(Em crise depressiva, da braba,
nem a vodca de Maiakovski me salva)

A depressão é uma bomba
plantada na nossa alma
pelo escroto programador.
Como eu amaria detoná-la
e me transformar em nada,
absolutamente nada,
nada absolutamente frio, inexistente,
poeira cósmica.
Mas a pomba é sádica
e não o permite
colando em mim a covardia.
Ela não quer a morte imediata
mas o sofrimento pelo qual alimenta
a sua pérfida e assombrosa maldade.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

MINIMALISTA


Penso,
enlouqueço.

Escrevo,
aprisiono.

Amo,
aproprio.

Capitalizo-me,
barbarizo.

Existo,
suicido-me.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

FORTUNA


Um pássaro azul pousou na minha clave de fá.
A de sol recolheu-se, pois chovia.
Uma caneca de café numa mão.
A mesma cantiga matinal.
A minha, sempre presente, falta de talento.
Quis ser músico, não fui.
Guerrilheiro, não pude.
Vai ser burocrata! Gritou o destino.
Cansado de meus sonhos, dormi.
Mas a manhã insiste em nascer.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

UM CHEIRO DE VERDE FRESQUINHO


Um cheiro de verde, fresquinho,
viajando através da infância, no tempo.

A chuva, os barcos de papel,
o sol desenhado pela irmã caçula,
o cheiro da terra molhada.

O som de passarinhos que eu,
minino criado por vó,
não sabia os nomes, nem imitar.

 Java, meu amigo de infância, sabia;
as mãos em concha, o sopro, o assovio.
Além de ser campeão de botão de mesa,
peão e o que mais viesse de brincadeira.

Quantos barquinhos foram naufragados?
Os sonhos são eternos enquanto não realizados?
As canções da infância ficaram perdidas
em alguma nuvem do cérebro.

Por que sou o que sou
e não o que desejaria ser?

Pudesse voltar no tempo...
Não, é melhor não.

Uma existência de dores, depressões
e guerras perdidas, já me basta!

Melhor um copo com uísque, gelo,
a voz de Maysa e apenas me emocionar,
eternamente... Até o relógio despertar.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

EIS O POEMA!


Um poema se faz,
não com a essência da alma,
mas com matéria do corpo
aquela que apodrece.

O tempo lambeu-me.

De repente tinha dezoito anos,
daqui a pouco trinta e seis,
dormi, e ao acordar,
fiz cinquenta e dois.

Ah! Esta matemática divina.

O cheiro de canela da morte.
As amizades de fumaça.
Um canto que não consigo identificar.

Sais, preciso de sais,

meu corpo lasso,
minh'alma inexistente,
todos os meus pesadelos.

O espelho não mostra os meus desejos,

apenas as minha frustrações.
A fome, a guerra. 
O sexo insaciável,
apesar da velhice,
do ridículo.

Incenso de
 cannabis,
orgasmos múltiplos,
música e lembranças: 
eis o poema!



quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

CINQUENTA E DOIS ANOS


Aos cinquenta e dois anos de idade
e trinta e três de trabalhos alienantes
- cumprindo pena no capitalismo -
quero apenas, antes da indesejada,
a minha aposentadoria,
um bom litro de uísque e gelo
e a voz de Billie Holiday...