quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DRINQUE


Tenho ao alcance da minha,
a tua solidão.

Por que não te procuro?

Por que vago na noite sem ti?

Na mão, uma cuba libre,
na vitrola, Elis,
na estante, A Ilha,
no meu país vagam
o mesmo medo, a mesma dor,
a mesma mágoa.

O fim é de um romance barato,
de um poema arcaico,
morrer, morrer de amor.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

E OS DEUSES PIEDOSOS, COMO SÓ OS HOMENS PODEM SER...


Viveu na época em que
a Terra era habitada por homens,
deuses, semideuses e gigantes.

Cavaleiro andante
e sedento de aventuras,
nem parecia uma criatura humana.

O vento era a sua bússola,
o coração, o seu comandante.

Não distinguia entre o bem
ou o mal,
apenas entre o prazer
e a dor,
mas não aquele prazer
de que nos fala Epicuro.

Um dia seu peito sentiu
o amor,
e por essas armadilhas que nos
prega o destino,
o cavaleiro cedeu,
bem certo de que a idade  fazia sentir
seu fardo.

Mas a vida é luta
que só aos poderosos pode sucumbir.

E ao defender honra e comida,
a sua lança, em  pontaria,
traspassou o rim da amada...

Eis aí a lenda da origem do álcool.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ÉRAMOS FELIZES ALI NAS CAVERNAS


Éramos felizes ali nas cavernas,
quando temíamos o deus trovão
e ele existia.

Hoje, já pisamos na lua
e em nada acreditamos,
tudo sabemos,
tudo podemos descobrir,
mas a felicidade ficou ali nas cavernas,
junto com o deus trovão.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

EXISTIMOS OU SOMOS APENAS SONHOS

                                  
Existimos ou somos apenas sonhos
de um deus adormecido?

A dor que ora sentimentos
é mais forte aqui e agora
ou nos persegue com a mesma intensidade
quando sonhamos?

Mas sonhar é fundamental.

Mas viver é fundamental,
embora nem a todos a vida seja permitida.

Não sonhássemos e não existiriam
os gigantes;
não sonhássemos e não existiriam
Cervantes e seu Dom Quixote;
não sonhássemos e a vida não teria o sabor da aventura:
descer das árvores e andar ereto;
a roda;
enfrentar os mares e suas serpentes;
voar com Santos Dumont
ou nos poemas de Bandeira.

Não sonhássemos,
e o desespero nos abateria,
como nas guerras uns homens abatem outros.

Não sonhássemos,
não haveria a esperança da liberdade.

Liberdade! Não em uma democracia que se fundamenta no consumismo
(Homens, consumam e eu vos devorarei!),
mas em uma sociedade em que houvesse justiça,
sem rótulo, sem etiqueta,
(Ouves, Poeta?)
uma sociedade que talvez seja apenas sonho,
mas o sonho é matéria-prima da realidade,
sendo o contrário também verdadeiro.

Sonhar,
com um mundo sem fome e sem dores,
onde as eleições e as sentenças não sejam mercadorias,
onde as classes sociais não existam,
onde negros, brancos, amarelos, vermelhos,
qualquer outra cor que exista formem um arco-íris;
sonhar
um mundo sem guerras, um mundo sem ódios,
um mundo sem Bush, sem Ariel Sharon,
sem Fujimori ou FHC:
um mundo sem a poliomielite!

Sonhar, enfim, com a flor azul de Novalis
e uma imensidão de mulheres nuas.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

NARCISITUDE


                       

                        Para Adriel Evangelista

O que é o amor senão
um espelho?

Quando pensas que amas,
apenas idolatras teu deus pessoal,
apenas idolatras a ti mesmo.

O que te agrada aos olhos,
assim como aos ouvidos,
são teus semelhantes,
apenas isto.

Achas, acaso,
que teu amor é maior
que o do teu inimigo?

Achas, ainda,
que teu amor é divino
e que proteges tuas crias
diferentemente do amor das hienas?

Achas ainda que amas
ou apenas te enganas? 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A NOIVA

Autor?

Penso na morte,
e penso como uma obsessão.

Como se ela existisse, concretamente,
uma figura, uma mulher.

Muito melhor a morte do que o nada,
o nada: escuro, frio, infinito,
assim como o medo.

Espreito a morte, não como o fim,
mas como o desejo de todo mortal:
a imortalidade.

Sim, a imortalidade estaria na morte
tal e qual a imaginou Schopenhauer.

Imagino a morte
não como aquela figura assombrosa,
uma caveira, vestida de negro,
a ceifadeira à mão,
tirada de um poema da idade média
ou da pena de Gustavo Doré.

Imagino a morte com o rosto
da menina mais bonita
que amei em minha infância,
e olha que amei a muitas!

Aquela menina a quem nunca tive
coragem de me declarar,
pois, ou me faltavam palavras
(e eram tantas as que gostaria de
pronunciar, que se atropelavam
umas nas outras),
ou as poucas que eu conseguia balbuciar
saiam cansadas, de pernas bambas,
era mais difícil do que caminhar sobre muletas.

(Ah a poliomielite!)

Morte,
a mais linda menina de minha infância,
de meus sonhos, de minhas fantasias,

(ou as prostitutas bonitas, de saias curtas,
pernas grossas e sorrisos fáceis
que eu ousava olhar, apenas olhar,
pois o mais era pecado
e surgiam feito flores em terreno fértil,
às nossas vistas da ladeira da rua da zona
na cidade do Cabo de Santo Agostinho,
onde Pizon descobrira o Brasil
e eu o sexo)

mas já agora mulher,
os seios ferindo a leve roupa
com que está vestida.

(Uma indiscrição:
a morte não usa calcinhas!)

Ao invés de ceifadeira,
a morte traz a sua mão
em oferenda à minha.

Um lindo sorriso
e uma boca de lábios grossos,
tudo anuncia,
e, com gestos leves,
a morte me convida
a partirmos em viagem ao seu reino.

Existindo ou não outra vida,
ou sendo tudo um longo e eterno sono,
eu não sei,
sei apenas que foi uma boa morte
e eu gozei.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

POR QUE ESTAMOS AQUI


Por que estamos aqui
e pelo que clamamos?

Com certeza não podemos compreender
o que somos.

O homem na cruz humilhado,
a  à prova,
as roupas mijadas
como um bêbado,
e que clamava, como um homem,
a Deus, não foi atendido.

Por que eu serei
poeta, ex-magro, o colesterol a pique,
a indignação a mil,
morto de infarto ou de covardia?