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quinta-feira, 2 de março de 2017

DESCULPA, MAS COMO NÃO TE AMAR?

                                  
Desculpa, mas como não te amar?

Tua voz é canção,
às vezes erótica, às vezes de ninar.

Teu olhar,
confundo-o sempre com o teu sorriso,
brilhantes.

Teu corpo... Ah o corpo!
O que faz teu corpo ser belo?
As formas?
Preciso ler mais Adorno!
O calor? Teus desejos secretos?

Desculpa, mas como não te adorar?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

CIDADELA SITIADA


Preparo a investida,
e, de falo em punho, ereto,
transmito-te, amiga,
não medo,
mas a esperança do prazer.

Cidadela faminta
e dominada por cruel  monarca:
a abstinência.
Teu corpo, sem resistências,
oferece-me ofertas e sorrisos.

Ri a tua boca,
brilham os teus olhos,
teus seios, os mamilos arrepiados,
saúdam-me.

Teu ventre, negro e rosa,
oferece-me, qual cálice,
o néctar da vitória.

Sou o bárbaro conquistador
a saquear-te prazer e sons,
e tu, cidadela sitiada,
à espera do libertador.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

RECIFE, BRASIL


                                  
Alta noite:
bocejam as estrelas.

Penetrando já a madrugada,
o sol inquieto desperta.

E a insônia,
minha atual e fiel companheira,
exige-me todas as atenções.

Nestes momentos
em que o corpo irritadiço e cansado
luta contra si mesmo
à espera dos louros do sono,
meu espírito e mente vagam
em voo alto em direção à tua lembrança. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DESEJOS


Desejar avidamente
outra vida, outra oportunidade
é voltar às origens;
escancavilhar os baús,
ou diria melhor, as esperanças;
é superar o cansativo caos;
a íngreme escalada,
a luz, o sono, o sonho.

Tudo isso antes de chegar ao fundo,
ao grande vazio da queda,
à esperança abortada, à morte.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CONQUISTA


Primeiro espreito-a, de longe,
folha branca sobre a mesa,
feito neve,
pele macia de mulher.

Depois,
a caneta deixada ao seu lado,
como quem não quer nada,
displicentemente.

Em outro momento,
a caneta já à mão,
o olhar sobre a folha em branco
se aprofunda, impaciente, ansioso.

Inquietante,
a mente busca decifrar
em sua brancura
as formas do poema.

Aos poucos o poema nasce:
primeiro a ideia, depois as palavras,
as frases, as estrofes.

E o poema alegra a folha
e a vida do poeta,
da mesma maneira que um filho
alegra a família
ou a morte a alma prisioneira.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

QUE TUA BOCA SEJA


Que tua boca seja,
para mim, taça.

Que tua saliva seja,
para mim, álcool e ópio.

Que o teu ventre
me sirva de casa.

Que o teu útero traga-me a eternidade
através do filho que te depositarei.

Semente de índio e negro
(como detesto a minha herança branca europeia).

E eu, amada, em troca serei teu escravo,
teu objeto, tua espada.

Servir-te-ei, exclusivamente,
até a morte.

O teu prazer
será a minha busca eterna.

Em minhas mãos,
mesmo que já fracas pela velhice,

encontrarás as armas que te defenderão
por toda a eternidade.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A ONÇA


Ao amanhecer,
mal despertando os meus olhos,
vejo ao meu lado, à cama,
a onça pintada com presas de marfim
e seu olhar de fera.
Seu nome: Solidão.

Após o café,
indo ao trabalho,
sinal vermelho,
a onça e seu olhar de fera
implora-me uma moeda.
Seu nome: Injustiça.

À noite, em sonhos ou em vigília,
A onça e seu olhar de fera
insiste em visitar-me.
Seu nome: Desesperança. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O TÉDIO

Autor?


Primeiro beijei tua boca
e acariciei tuas mãos,
nos tornamos amigos e amantes.

Uns tempos depois,
minhas mãos passeavam em teus seios,
macias elevações de carne, pele e desejos,
qual o viajante que percorre caminhos conhecidos.

Mas o tempo,
este destruidor de sonhos
e calmante dos desejos,
pôs em nossos destinos o tédio.

Hoje, tua boca, tuas mãos,
teus seios e meu desejo
são apenas lembranças enfadonhas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CRIAÇÃO DO POEMA


Da inspiração,
após vencida a preguiça e a rotina,
vem o borrão.

A inspiração é um insight,
uma ideia, um relâmpago
que fotografa através da memória,
no papel, letra corrida,
o corpo do poema.

Próximo passo: a gaveta.
Que o poema amadureça.

Após a emoção:
o trabalho, a lapidação.

A inspiração cria o poema,
como a natureza o diamante.
O trabalho lapida o poema,
como a mão a pedra.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

CARPINA


Carpina,
Rua de São José, número oitenta.

Primeiras e caras lembranças:
a cachorra Balalaica;
a máquina de costura de minha avó Lídia
           
(quantos mistérios a serem explorados!
Acho que foi o meu primeiro deslumbramento).

A Praça dos Leões
e seus pés de coração-de-negro.

A casa era grande
(ou a imaginação?),
da porta ao portão,
um longo corredor
de onde eu, menino,
observava a chuva
e sentia (resignado?)
a impossibilidade de correr
e me molhar.

Os próximos quadros
me levam ao bairro da Encruzilhada,
já em Recife.

A casa de Tia Clarisse, primeiro andar.

Os bombons jogados por Adalgisa para mim,
do quintal de sua casa
para a varanda do primeiro andar
do quarto onde eu dormia.

São minhas mais agradáveis lembranças.

Pontas de Pedra.

Lembro-me dos seus morcegos,
que atacavam as árvores frutíferas,
dos sapotizeiros, da igrejinha,
dos espantalhos que o Padre mandava fazer
(um dia recebi um de presente).

Lembro-me da festa do padroeiro.

As músicas da divulgadora local:
Cinderela, na voz de Ângela Maria;
O Trovador, na voz de Altemar Dutra;
A Praça, não sei se na voz de Chico
ou de Ronnie Von.

Do mar de Pontas de Pedra,
veio o meu primeiro amor: Emília.

Um dia, deitado na rede,
Emília me beijou na boca,
(um beijo de crianças).

O beijo mais sincero que já recebi.

Ainda hoje guardo um cartão
de feliz natal de 1966,
de Emília para mim.

(Onde estará Emília? Será feliz?)

Ah, o louco da cidade
e a sua mania pelos urubus
que sujavam os céus.

O resto são saudades:
saudades da inocência,
saudades da alienação
(como era belo e bom
o meu mundo),
saudades dos bombons de Adalgisa,
saudades dos carinhos de minha avó Lídia,
saudades de Emília, meu primeiro amor
(quando amarei de novo?).

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

DESPEDIDA

                                  
O tempo tudo cura,
o tempo tudo acaba.
A ferida, com o tempo, sara.

A dor da perda, com o tempo,
é esquecida.

O amor com o tempo acaba.
O tempo é o melhor dos remédios.
O tempo é o pior dos venenos.

Devolvo os teus livros!
Teus bilhetes, do tempo em que o amor
ardia,
não te preocupes, rasguei-os.

Ah! os teus retratos,
Dois, exatamente,
devolvo-os junto com este poema.

Com o tempo, certamente,
esquecerei o sorriso que neles esboças.

O tempo,
como anseio hoje que passe.