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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

APOCALIPSE - CANTO I



Quatro cavaleiros habitam meu coração:
                   Guerra
                   Peste
                   Fome
                   Morte.

Não sei se o fim está próximo
ou se o auge da vida se anuncia
             nestas auroras de ferro.

Mas, quando morrer o corpo,
que seja em sala com espelhos.

Quero arder,
gozar o momento da vitória final do guerreiro.

Quando morrer o corpo,
que seja em roupas brancas,
             limpas,
que a alma não sofra
com a sujeira ainda tão próxima.

Quando por fim apodrecer o corpo,
e todo prazer da morte for gozado,
que seja queimado

para que não haja lembranças terríveis.


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

APOCALIPSE - CANTO II


A espécie não se perpetuará.
Os cogumelos atômicos
esperam apenas a primavera para desabrocharem.

Os homens morrerão
em super-hiper-overdose radioativa.

Pior,
a humanidade perecerá por sob a mão da humanidade.

A humanidade perecerá pelas mãos
das bestas.

Por sobre as nossas cabeças,
que olhos nos espiam impassíveis?

A humanidade não se perpetuará,

como também os vermes.


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

APOCALIPSE - CANTO III


Por sobre as nuvens negras,
brilham as estrelas
(que longo tempo durará a noite,
astros infinitos?).

A Terra, rosa radioativa, chora.

 não há lágrimas,
apenas poeira.

De que valem lamentações sobre os escombros do muro?

Já não há esperança,
os cavaleiros marcham sobre todos
com suas armas.

Deus afinal escreveu a última cena de sua peça.
                                       
Comédia?

Quem terá pena de nós?


quarta-feira, 23 de setembro de 2015

LEITURA DO POEMA

Ler om poema
com olhos de gato,
à procura do que  não está.

Essa a função do leitor,
recriando o texto,
inflamando novo sopro à alma.

Eis que o autor
se renova a cada leitura,
a cada novo olhar crítico.

Eis que o poema se eterniza
como uma escultura em mutação
de cores, de formas, de conteúdo.




Musicada por Climério Filho
Gravada em 2002
CD "Maracatu pra ela"



quarta-feira, 16 de setembro de 2015

VITÓRIA


Desejar teu corpo, amada,
       como deseja o homem, eternamente,
       a liberdade.

Vazar teu corpo, amada,
       como a lança ao guerreiro
       em batalha.

Lutar com teu corpo, amada,
       em luta greco-romana
       e tu, vencida, te possuir.

Saciar-me em teu corpo, amada,
       como um sedento
       já nos braços da morte.



Musicada por Climério Filho
Gravada em 2002

CD "Maracatu pra ela"
https://www.youtube.com/watch?v=0QuAyo7vf5w

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

IMAGENS


Flui o tempo por entre nossos corpos,
nada mais há que possa nos separar.

A chuva,
as vidraças salpicadas,
estes móveis, espelhos e músicas,
este quarto de hotel barato
são imagens que se diluirão
e que, para nós, não existem.

Só o tempo entre nossos corpos.

Só as tuas formas,
o teu calor,
a tua imagem final.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

O PRIMEIRO SENTIDO


Fazer de tua boca
      minha taça,
e nela beber o vinho de tua
       saliva,
de tua língua, de tuas sedes.

Um só gosto, um só paladar,
       nos tornaremos um só prazer.

Através de mimtu te sentirás.
       Explodirei em ti
       e me sentirei
       molhado, molhado, molhado
       até o afogamento.

Nos amaremos sobre as folhas
       que dançam a coreografia dos ventos.

A nossa dor será a dor da mãe
       que perde o filho.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

BATALHA


Há um oceano dentro de ti
       que não consigo vencer
       (as ondas, as correntes, as tempestades,
       o monstro que não existe...)
       com minhas braçadas de ferro.

Meus músculos cansam ao tentarem
                    dominar teu peito
                    a nado livre,
são frágeis ao te envolver.

Sou como o filho
       que não se fez,
o espermatozóide que não venceu
       a batalha
       no líquido materno,
       mar bravo.


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

DO POETA E SUA FUNÇÃO

Resultado de imagem para homem um fruto

O homem poeta,
como a árvore que
dá frutos e alimenta
a fome orgânica,
alimenta com sua poesia
a fome de justiça
e do prazer estético.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

TESTAMENTO


Aos que tu herdares,
estes herdarão as tuas palavras,
as tuas palavras de ira e de docilidade.

Herdarão as tuas mulheres,
os teus castelos,
os teus desejos,
as tuas virtudes e os defeitos.

Herdarão as tuas guerras e a tua paz.

Herdarão teus caminhos de ida
e teus caminhos de volta.

Herdarão tuas tradições,
teus pecados,
teus deuses.

Serão o teu reflexo no espelho eterno.

Aos que tu deserdares
e aos bastardos,
a estes restarão cultivar a revolta,
e estes modificarão o mundo.

Serão como uma pedra atirada contra o espelho eterno.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A PALAVRA, O POEMA


A palavra como o poema
te engravida, independente das estações,
como qualquer ser engravida,
como a barata imunda
ou a mulher bela de faces de seda.

A semente é a vida
com suas dores,
       seus destinos traçados
       por homens.

O fruto é a luta
- por que aceitar o sofrimento
       como um dom divino? –
expulsa do teu ventre as palavras,
assim nasce o poema
             que se dá ao povo.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

POÉTICA IV


Não há mais clima para o Poema-Amor.

O momento é para cantar a vida,
o Poema-Vida,
e a vida é miséria e injustiças,
e mais miséria e torturas.

O momento é para o Poema-Verdade,
e a verdade
é esse país de famintos.

Não há mais clima para o Poema-Alegria,
o momento é para o Poema-Mágoa,
para o Poema-Tédio, o Poema-Murro.

O clima é para o Poema-Luta.

Abaixo o Poema-Poema!


sexta-feira, 24 de julho de 2015

EIS QUE VENHO SOLTO

Van Gogh

Eis que venho solto
vida adentro, ventre
com meus braços largos
num gesto tímido mas sincero.

Eis que o vento sopra
entre o mormaço quente
e a fria ausência
traspassando lento e sempre.

Eis que se anuncia o fim,
badaladas, acenos, lenços
e as paixões já resfriadas
cavalgam de leve as planícies.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

DECLARAÇÃO


Só um porre para esquecer
a falta de lua
e a distância do teu corpo,
como as distantes estrelas
       em mutações.

Só um porre para esquecer
que entre mim e ti
há uma infinidade de razões
       medievais.

Que morra a inteligência
       e a razão.

Só tu e teu sexo.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O ESPELHO


Dispersos, caminhávamos de mãos dadas,
outras vezes apenas o olhar nos reunia.

O meu coração era como a mão do guerreiro,
eras tu a minha arma.

O guerreiro ama a sua arma
como um deus à sua criatura.

Eu te moldara dispersa,
por isso amavas o silêncio na sua essência
e nos seus mais vulgares momentos.

Dispersos,
caminhávamos livres, como se fôssemos
o fogo,
eternos como o pássaro fênix.

As tardes e seus tédios
não nos pertenciam,
tal a Via Láctea. 

Um dia paramos
e nos vimos defronte do Espelho
qual o Livro da Verdade.

Hoje as minhas mãos não tocam as tuas.

Oh pesadelo a existência!


sexta-feira, 3 de julho de 2015

NOITE


Do alto dos seus óculos
me olha meu avô
- seus olhos me perseguem
como os da Monalisa –
desse velho retrato na parede.

Minha avó em sua cama
dorme, com seus setenta anos,
um sono de criança.

Contemplá-los
é como assistir a um filme
em preto e branco,
quando  se sabem velhos
os heróis que se amam
com os corpos e corações.


terça-feira, 30 de junho de 2015

EL SALVADOR


Nos acampamentos guerrilheiros em El Salvador,
as balas norte-americanas
       são como as flechas do cupido:
apaixonam o povo cada vez mais
             por seu país,
             por sua liberdade.


terça-feira, 23 de junho de 2015

CAMINHOS


Por entre arcas trabalhadas com exóticos
              motivos,
chaves de ouro,
estranhas máscaras
             de deuses,
brasões de famílias
e fantasmas mal-amados,
chego a teu coração:
tão estranho como caminhos
             ‘nunca antes percorridos’,
             becos sem saída,
             pântanos,
             selvas,
             selvagens nus,
             belos corpos.

Tão igual como fadiga, mel, beijo, tédio
             e essas tardes infinitas.


terça-feira, 16 de junho de 2015

POÉTICA V

CHE GUEVARA

"É preciso ser duro, mas sem perder a ternura, jamais..." (Che Guevara)


Quero a poesia que denuncie as injustiças,
mas que não deixe de cantar o amor.

Quero a poesia que grite
com a força das veias estouradas,
embora o poeta pare e ouça
o canto azul dos pássaros.

Quero a poesia como um balaço no cão que sofre
de uma dor de merda, inútil.

Quero a poesia como a mão que afaga,
que ampara o rosto que chora,
que trabalha a massa
e divide o pão.

Quero a poesia que subverta as cabeças,
que pregue a luta,
mas que esta luta
não se faça com as armas do poder
e da ordem.

Quero a poesia
pura como coração de menino,
graciosa como guerrilheira,
viril como pétala, cristal.

Por isso tudo a cabeça do poeta
é uma bomba-relógio.

Por isso o corpo do poeta é magro.

Por isso é que o poeta sonha com a justiça
embora não tenha fé.

O poeta, gente, é um ser desesperado.


terça-feira, 9 de junho de 2015

A HISTÓRIA DE MINHA VIDA É BANHADA PELO MAR


A história de minha vida é banhada pelo mar,
de onde surgiram meus primeiros amores,
como sereias,
encantando-me com os seus mistérios.

Nesses tempos,
a dor só me vinha do mar,
propositalmente,
como busca os peixes no mar
o pescador com suas redes.



Musicada por Climério Filho
Gravada em 2002
CD "Maracatu pra ela"