sábado, 27 de fevereiro de 2016

MORTE


Morrer
é saber-nos incapaz
do mais simples gesto
cotidiano.

Morrer
é não poder acordar
na manhã seguinte
de um sonho ruim.

Morrer
é saber impossível algo,
como quando o nosso amor
nos deixa
sem esperança de voltar.

Mas morrer
é, antes de tudoesperar
na ante-sala,
esperar... esperar...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

CANTIGA PARA QUEM PARTE


A morte é clara e límpida
como água,
tão certa como... a morte.

No entanto, quando nos dizem
morreu!,
achamos impossível,
tão cedo! Tão rápido!
Tão feroz!

E nem percebemos como
as suas afiadas garras
dilaceram nosso coração,
nosso espírito.

Quando vemos, morremos também
um pouco.

Mas a vida segue
indiferente aos nossos protestos,
como se nada houvesse acontecido,
como os humildes
que sempre esbarram
em interesse dos poderosos.

E queremos gritar e dizer:
Morreu! Você não sente?

Mas nos reconfortamos nas lágrimas
e nas lembranças,
pois a morte é natural,
mas como custa a acostumar!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

PURIFICAÇÃO

Vícios dos homens

Por que a desenfreada busca
Da poesia?

Por que a espreito de meu esconderijo?
Caço-a como bicho raro?

Faço-lhe graças, acenos, caprichos
e desejos como um escravo,
se há prazeres mais fáceis,
mais intensos?

Por que não o vício do ópio,
o sexo, a política
ou qualquer outro desejo
imediato?


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

SONS


Se me tocas os seios
me arrepio,
se me tocas o ventre
com tuas mãos macias,
qual explorador do desconhecido;
se me tocas, amante,
qual músico a seu instrumento,
esperas do meu corpo
o retorno de tuas carícias.

Se me tocas,
esperas o retorno
de tua arte,
esperas meus suspiros,
meus gemidos, os sons
pelos quais se expressam
o prazer.

Por issoquando amamos,
canto,
comporto-me como música.


domingo, 7 de fevereiro de 2016

A UMA AMIGUINHA POETA


 "Você não tem uma alma, você é uma alma. 
Você tem um corpo"C. S. Lewis


Esquece teus primeiros poemas
em algum canto do teu quarto.

Com o tempo,
este eterno amadurecedor
de almas e talentos,
eles florescerão.

Às vezes, como o bíblico grão de mostarda,
precisamos que morram
nossos primogênitos escritos,
para que deles nasçam frutos.

Tenhamos paciência.

Chegará o tempo da colheita
e esta será abundante.

E, então, como o filho
que a nós sobrevive,
os poemas, ao poeta, sobreviverão.

E brilharão como as luzes
das estrelas mortas.

Mas, se com o tempo
não te tornares poeta,
não te aflijas.

Toda a vida é um poema.

Certo de que nem sempre
um poema épico,
de heróis e semideuses,
mas um poema: simples e belo
como o amanhecer.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

PRIORIDADE


Meu corpo
é mais corpo
que alma.

A alma terá
o seu tempo,
regará suas flores.

Por agora,
só prazeres físicos
e odores.