quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CERVANTES VIVESSE HOJE


Cervantes vivesse hoje,
e Dom Quixote
montado em seu Bucéfalo,
- ao fundo, Sancho Pança,
as mãos cobrindo os olhos
de medo e pavor –
a lança em riste do cavaleiro
investiria contra os aparelhos de televisão?
Ou cooptado
estrelaria uma trama das oito?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

DEUS


Deus,
se existir, é um grande poeta.

O maior poeta dentre todos,
e os bons homens,
assim como Chico e Adriel,
seus melhores poemas.

As mulheres,
sejam belas ou não,
seus mais deliciosos poemas,
pois que a beleza não se transmite
apenas pela visão,
que o diga outra arte: a música.

Pois que a beleza é ser leve,
companheira, é ter a pele macia,
um bom humor
e gemer na hora do sexo.

Mas,
como acontece a qualquer poeta,
acontece a Deus,
que é feito a nossa própria imagem:
existem aqueles poemas-rascunhos,
fadados ao lixo ou ao esquecimento,
que insistem em viver
independente da vontade do autor.

E o lixo se faz poesia!
- Será a ausência da arte
ou o mal existe?
Sobrevivem os péssimos poemas
e o mundo é habitado
por homens-rascunhos.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DRINQUE


Tenho ao alcance da minha,
a tua solidão.

Por que não te procuro?

Por que vago na noite sem ti?

Na mão, uma cuba libre,
na vitrola, Elis,
na estante, A Ilha,
no meu país vagam
o mesmo medo, a mesma dor,
a mesma mágoa.

O fim é de um romance barato,
de um poema arcaico,
morrer, morrer de amor.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

E OS DEUSES PIEDOSOS, COMO SÓ OS HOMENS PODEM SER...


Viveu na época em que
a Terra era habitada por homens,
deuses, semideuses e gigantes.

Cavaleiro andante
e sedento de aventuras,
nem parecia uma criatura humana.

O vento era a sua bússola,
o coração, o seu comandante.

Não distinguia entre o bem
ou o mal,
apenas entre o prazer
e a dor,
mas não aquele prazer
de que nos fala Epicuro.

Um dia seu peito sentiu
o amor,
e por essas armadilhas que nos
prega o destino,
o cavaleiro cedeu,
bem certo de que a idade  fazia sentir
seu fardo.

Mas a vida é luta
que só aos poderosos pode sucumbir.

E ao defender honra e comida,
a sua lança, em  pontaria,
traspassou o rim da amada...

Eis aí a lenda da origem do álcool.