quinta-feira, 18 de agosto de 2016

POÇO

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Se me perfuro, jorram versos.
No peito, o poço é profundo,
infinito espero,
que o medo de ficar sedento
é o que agora menos quero.

Hei de querer o mal para mim?
Se o mal não desejo
nem a quem não quero bem?

O poço é profundo, sinto,
e  uma parte é jorrada,
pois da outra me alimento.

Sou mãe de mim mesmo,
pai e criador, assim espero,
de infinitos poemas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O TEMPO


Indiferente às súplicas e aos suspiros,
o tempo vai: cavaleiro andante.

Águas que as mãos,
represa humana, não retêm.

O tempo, que nos afasta
dos espelhos
e nos dá o ar de sérios
e respeitáveis,
envelhece-nos também
para as sacanagens.

Mas o tempo,
longe o fantasma da velhice
com seus achaques
e sonhos despendidos para sempre,
é qual o sono para o cansado
ou o bálsamo para o doente.

O tempo amacia as feridas
que pensamos insanáveis,
o tempo nos aproxima da morte
sem a qual mais absurda seria a vida.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

AO MEU LADO, NINGUÉM


Ao meu lado, ninguém,
apenas a solidão.

Será que a inventei?

Solidão,
tão constante e espessa
que eu poderia dar-lhe
as formas mais diversas.

Falta-me, no entanto,
cinzel e arte,
e, se os tivesse,
faltar-me-ia, com certeza,
a coragem.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

SINA


Os poemas estão intactos
em algum canto do universo,
letra a letra,
espaço a espaço,
palavra a palavra,
como se unidos por um fio
invisível,
prontos para os partos.

Velam-nos com um cinismo
e um sadismo
a toda prova de comparações.

Observam-nos
quando pensamos que os observamos.

Dão-se-nos pouco a pouco,
como água
a quem por muito tempo
ficou sedento,
o bastante para que não cheguemos
à loucura.

Os poemas têm nas mãos as nossas vidas.
Ser poeta é uma maldição.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

ÚLTIMOS MOMENTOS


Entrego a ti, vida,
estes meus últimos momentos
de paixão
e recolho-me qual um monge
cansado
a seu abrigo.

O amor, esqueci-o
em algum canto escuro e frio
do coração,
onde a mente já não vasculha.

O teu corpo, cobri-o
com tuas próprias vestes.

Aos teus beijos resisti
resignado,
como quando o despertar
subjuga o sonho quente ainda.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A DOR

 

Havia o amor,
mas não julguei que ele
resistisse a distâncias.

Os meus olhos  não podem-te ver.

Já não lembro alguns detalhes
do teu rosto
(uma leve brisa em teus olhos
cor de mar?),
ou de tua voz
(guardavas nela algum rancor?),
os teus gestos mais comuns.

Mas ainda persiste em mim
a dor,
maior que a dor do parto,
pior que o desvendar
de um medo escondido,
a dor
de amar sem ser correspondido.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

FRUTAS


Li uma vez um livro
em que o amante se declarava
à amada
com um lindo poema
e dela ganhava um beijo.

“Tua boca tem a frescura
de um figo maduro...”
Disse eu à minha amada de infância.

Mas eu nunca havia provado um figo
e ela me pareceu
não ter gostado da poesia.

Foi assim o meu primeiro desencanto.

E, até hoje, desencanto após desencanto,
minha boca anseia pela tua boca
e teu hálito de figo maduro.