quinta-feira, 3 de novembro de 2016

ÚLTIMO POEMA

(Isadora Duncan - 1877/1927)


Que meu último poema,
depois de tanta vida vivida,
que é o mesmo que dizer:
depois de tanta vida sofrida,
fosse um poema dançante.

Um poema como um corpo
que bailasse livre
de amarras sociais
e da poliomielite.

Um poema com a cara da Isadora Duncan.

Um poema que saísse
alegre e louco
das páginas do livro
mal ouvisse o Lago dos Cisnes
de Tchaicovski
ou um frevo de Capiba.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ÉDIPO


Contemplo longamente a noite,
como a mãe que vela o filho.

As estrelas brilham.
Não há lua
que se derreteu
em leite e melancolia.

Mas o que mais vejo
ou quero ver, na noite,
são teus olhos que não me olham,
mas não apenas eles:
tua boca que não sorri,
teus cabelos de um castanho-do-Pará,
teu hálito que mistura hortelã
e saliva...

O gosto de tua saliva.

Procuro, através do poema,
compor teu corpo,
de fragmentos,
de lembranças,
mas tuas roupas...

És como uma esfinge sob elas,
decifro-te ou não te possuirei.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O FRUTO


O poema caiu de mim-árvore,
madurado,
na época certa da colheita.

Tinha no gosto
o acre de alguns momentos
de desencanto e tédio,
e o doce açúcar de outros,
como um beijo
na boca da amada
ou um amanhecer cor de fogo
com uma leve brisa
que tudo anuncia.

Havia ainda
a leve embriaguez
do álcool ou do sexo.

Ofereço-vos este fruto.

Que a sua polpa dê forças
ao vosso corpo
e suas sementes,
após secas e plantadas,
floresçam,
e que, enfim, a beleza
faça parte de vosso pomar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

OS DIAS QUE PASSAM

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Meu amor, te arrebento
como me arrebento.
Amo-te assim como que desgarrada,
sem saber se ao menos te acharei.

Amo-te assim como que esquecida.
Como uma dor sem remédio.
Amo-te?
Como o ópio, loucura.

Amo-te afastada
como a um filho dado,
como à lua.
Amo-te calada,
como um silêncio ferido,
um choro trancado
e a chave perdida.

Amo-te assim como a um cão.
Banho-te, acaricio-te, dou-te comida,
mas és um cão.

Amo-te por fim
como quem odeia,
como quem não vê que a noite é escura
e se aproxima
a cada belo dia ensolarado.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

INFÂNCIA

Paulo Talarico


Como é poético
nascer em uma cidadezinha,
cantar a sua cidadezinha.

Como é poético e saudável
morar em uma cidadezinha
onde o café da manhã
nos espera no quintal,
onde os pássaros
substituem os estéreos.

Mas a verdade é que de minha infância
lembro apenas os dias de chuva
e a impossibilidade de me molhar...

De minha infância lembro apenas
o começo da impossibilidade de ser.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PLUTOCRACIA


Não quero amar-te como amo-me,
quero apenas usar teu corpo
como ao povo,
penetrar-te como numa tortura;
que amor político!

Quero fazer-te sofrer
e mesmo assim que me ames,
idolatre-me como uma bandeira.

Quero morder tua carne,
embebedar-me em teu sangue
fazer um banquete com teu corpo.

Quero adorar teu corpo, teu sexo, mas odiar-te.
Dizer que te amo ao ouvido,
e entregar-te a outros homens
que me paguem em dólares por ti.

Não te quero beijar,
quero cuspir em tua boca,
queimar-te com cigarros.

Quero usar-te,
usar-te como escrava,
usar-te como meio,
eu sou o fim.
Usar-te até que morras asfixiada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

EXISTÊNCIA

 

O amor desabrochou.
Havia no peito a semente seca,
em terra árida.

Mas, com tuas mãos,
reviraste-me
e a água que brotou
dos teus olhos,
inesgotável fonte de beleza,
regou-me,
saciou-me a sede,
encharcou-me o peito e a alma,
fez-me fértil.

Alimentaste-me com tua saliva:
boca a boca.

O amor desabrochou,
maduro fruto, polpa macia.

A seiva do teu ventre e
o sumo do teu sexo fecundaram-me.

O amor renasceu
e a alma, vivente ser, sorriu.

E o corpo, efêmera morada,
novamente deseja o gozo de existir
a cada hora, a cada minuto,
a cada momento, ao teu lado.