sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

NA ROTINA DAS MANHÃS

Na rotina das manhãs,
       o mesmo rosto no espelho,
       o mesmo jato de urina,
       o mesmo cheiro.

O pão, a manteiga, o café.
O mesmo poema cansado,
o mesmo livro debaixo do braço,
a mesma vontade matinal de ir ao banheiro.

No amor mal feito,
       no desejo esquecido na esquina,
       no grito – de gol? – amarrado no peito,
       na dose de estricnina – para o amante ou o rato?

Na carne estragada na geladeira,
       no copo de cerveja quente,
       no sol que racha minha cabeça,
       no tempo perdido na máquina batendo um ofício


ao Exmo. Sr. Filho da Puta,
       no romance não lido de Loyola
       na solidão sempre lembrada e eterna
- Deus?

Caminho – inútil caminhar? – homem metafísico
       através da manhã e do poema,
       entre o ser genético e seus códigos
       e o ser divino e o horror da eternidade.

domingo, 28 de dezembro de 2014

REFLEXO NO ESPELHO OU ITINERÁRIO PARA UM DESCONHECIMENTO


O meu quarto são quatro paredes brancas

me refugio.

fora, os ruídos,
as inacabáveis batalhas pela vida.

Eu continuo ferido,
enquanto a morte não vem.

Lembranças da infância cada vez mais nebulosas
e distantes.

A fumaça do cigarro do homem
que está ao meu lado,
nesta gravura na parede,
incomoda-me os pulmões.

Repetem-se os sons
como a repetição da vida,
nas tempestades de ânimos em que se afundam
meus navios.

Busco-me
- como busca o sol a trepadeira,
minha língua, tua língua,
o suicídio, o aposentado –
nos meus livros empoeirados
como um mágico à fantasia de espelhos,
noites, beijos e bombas,
sons, cores e seres.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A CARNE

Khalil Gibran

Paixões da carne a queimar feito o fogo da Inquisição,
feito as bombas de napalm nos Vietnãs.

Teu corpo aberto no meu corpo,
dois corpos e um só dono desejo.

Noites,
lembranças,
teu cheiro,
insônia, copos de vinho barato
e essa música de violino que nada me lembra ou diz.

Carnes frescas e frias
como a desse bife sangrando
ou as tuas carnes febris e tensas
como fios elétricos, choques
e descargas.

O amor em teu corpo de formas enxutas
e essa toalha de feltro
pendurada na parede no banheiro.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

MEU PAÍS

"O céu é o meu tecto, a terra minha pátria e a liberdade a minha religião." (ditado cigano)

Da janela do meu apartamento
        Vejo meu país 
Mês de setembro, a chuva cai forte,
frente fria vinda de São Paulo,
segundo andar.

Escuto vozes:
Simone, Gal, Elis.
Mas também as vozes dos operários
       que pedem salários melhores,
       mães que choram por leite para seus filhos,
vozes fracas que pedem justiça e pão.

E, nas tardes imensas como desertos,
             em que a certeza do tédio
             é pior do que a da morte,
o tempo muda
parecendo mais lento
como o calor ou a tortura. 

Exilo-me
nas cavernas de minhas cáries,
no salário de funcionário público federal,
             a alma mofando entre velhos arquivos
             de papéis e desejos
e a vida lá fora a correr sob o sol.


sábado, 13 de dezembro de 2014

LUTA CORPORAL


Meu esquálido corpo paralítico
sente a falta do teu corpo,
faminto,
feito peste.

E a guerra que se trava
sob o intenso bombardeio de nossos
hálitos
deixa saldo terrível:
corpos suados e exaustos.

Teus peitos esféricos de moça
ferem minha língua sôfrega de prazer.

Através do teu e do meu suor
sorvemos um ao outro.

Os pêlos freneticamente arrepiados
são ervas daninhas,
são árvores,
floresta a ser derrubada a machado,
a unha de bicho,
a sopro de Deus.

Mas sob o ruído de ratos
que se amam como nós,
num desesperado esforço de esgotamento físico,
sinto vontade de te roer as entranhas.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

POMAR


Os amantes se amam.
Mas nem sempre aos amantes
é permitido se amar.
Os amantes são frutos proibidos. 


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CANTO LATINO-AMERICANO


"Porque longe das cercas embandeiradas que separam
quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador."
(Raul Seixas - "Ouro de tolo")

Nossas línguas não são unas,
nossos sentimentos são separados
por fronteiras, bandeiras, hinos.

Mas temos laços:
       sofremos igualmente,
       nossos medos são os mesmos,
       nossos desejos, iguais,
       nossas crianças morrem da mesma fome.