quinta-feira, 25 de junho de 2020

O PRIMEIRO LIVRO



Choras, lava tua alma
Inspira, respira, alimenta tuas dores.

No princípio Deus criou os céus e a terra
E o primeiro Livro.

E o Livro não se fez carne
para não apodrecer, mas, verbos
e mármores que antecedem escuros.

Tratas com carinho suas páginas
Que as promessas futuras se farão presentes.
Sombras se mostrarão nos caminhos.

És viajante, portanto estrangeiro,
Não te fia nos homens, mas no Livro
na pele, no tato, nas reminiscências.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

RECEITA PARA UMA VIDA DIGNA

Uma pitada, bem caprichada, de sorte.
Não passar fome na infância.
Ter a possibilidade de estudar.
Poder trabalhar.
Descobrir os poderes mágicos dos livros.
Esbarar nos amigos que estão espalhados por aí a nossa procura.
Encontrar quem te bote no bom caminho do álcool.
Descobrir o sexo que é o alimento do prazer.
Ter olhares e sorrisos para as ruas, para o povo.
Descobrir que a desigualdade e a injustiça andam juntas de mãos dadas.
Identificar os inimigos que pode ser a própria justiça.
Torna-se poeta ou qualquer outro tipo de artista,
inclusive aqueles que admiram e se emocionam.
Entender que a luta também pode ser armada.
Esperar o momento certo da luta, sem medo algum da morte,
que pode não acontecer no curto espaço da nossa vida,
e, por isso, plantar e regar sempre a semente da revolução.

quinta-feira, 11 de junho de 2020


Dá-me um pouco da tua fé
Uma metade de teu grão de mostarda.
Coloca esta metade em minha mão
E a transforma em espada.

Armado sou um comandante conquistador
E tu minha amada
(ou minha escrava).
Espada em riste mato meu prazer
E o teu prazer será minha grande conquista.

Em nome dos teus deuses
Minha espada os destruirá
E à violência da fé. 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

PARA QUE POEMA?

Afinal,
para que serve o poema?
Não sacia a sede
nem mata a fome.
Não serve de moeda de troca
ou de arma para a guerrilha.
Para que serve a vida
ou o beijo na namorada de infância?
O poema, nu,
em folha branca, é prazeroso
E despe-se para os olhos
de quem o procura.
Rasga o véu dos sonhos
e sedimenta-se em palavras.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

POEMA PARA LUIZA

A primeira, e única vez que vi Luiza,
Deslumbrei-me!

O que primeiro me chamou à atenção
Foi o sorriso largo e sincero.

O corpo magro, quase adolescente,
Seios fartos... Linda! Lindos!

Morrerei sem nunca mais rever
Luiza?

Como amei essa mulher.

Um homem velho, quarenta anos,
Indefeso ante uma menina com metade da sua idade.

Desde o primeiro momento que te conheci
Te desejei, mas não um desejo efêmero
Mas, si, um efêmero desejo.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

NUA ENTRE VASOS DE PLANTAS

                    Stock


Nua entre vasos de plantas
Só de calcinha e sutiã
Perdida na sala de meu apartamento.
As janelas abertas
Prováveis voyeur nos olhando.
Do sétimo andar
Nos filmando
Nos jogando no youtube.
Plantas verdes, jarros marrons
Roupas íntimas brancas.
Minha ex-namorada não gosta de vermelho,
prefere preto.
Na sua calcinha bordou sábado
Quantos sábados serão ainda necessários?
E a namorada que não chega?
E a namorada que não existe?
Olho para as plantas em seus jarros
Você toda de branco
Só.
Um dia ela comeu uvas no meu umbigo
No outro sumiu numa nuvem que ria.
Dia deste misturei azul com vermelho
E deitei no sofá.
Abro-me
Numa cortina:
Começo o espetáculo.
Por que amar se o amor só leva a dor?
Apenas a dor nos acompanha
Em todos os momentos da vida
Comigo a natureza foi mais cruel ainda:
Sou todo dor.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

SINAIS


Olha o povo andando
Feito gado,
Gado humano.

Em cada cara o horror,
Em cada rosto a ausência,
Não sabem se esperam o maná
Sinal divino,
Ou se vão lutando pelo pão
Sinal humano.

Não sabem que a vida é fazer-se
Tal a semente que se torna fruto
Tal a madeira que se torna clava,
É fazer-se,
O mundano e o divino,
O pão e o espírito,
A oração e o grito,
A morte e a sobrevivência.

Musicada por Cláudio Almeida
Gravada em 2002
CD "Maracatu pra ela"
https://www.youtube.com/watch?v=Cg6i1oShMtc