quinta-feira, 16 de julho de 2020

O QUARTO LIVRO



És todo fígado
Dores, gorduras, cancro.

Havia um homem que cultivava barbas
e de suas barbas surgiam livros
de suas mãos intenções que formavam estrelas
e estas se apagavam ao vento assim o círio.

Quanto mais brancas as barbas
Mais de suas estantes nasciam livros do Livro.
Nasciam asas, mas também ilusões que não eram azuis.

Somas dois quadrados pois és o fazendeiro
E de tuas minas escavaras o ouro e a tanzanita.

Darás de comer a quem o Livro folhear
E a espada para enfrentar os Quatros Cavaleiros.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

O TERCEIRO LIVRO



Escaldante é o calor das entranhas
Não queiras conhecer-te por inteiro.

Assim como gozas dentro da mulher amada
Gozarás com as folhas do Livro.

Qual espada dentro do inimigo
Empunharás o Livro contra a morte.

A morte é todo um único esquecimento
Só o Livro resgatará as memórias de uma nação.

Usarás as palavras do Livro
Como as asas usam os pássaros.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O SEGUNDO LIVRO



O álcool em colunas romanas
Impede o avanço inimigo
Dos bárbaros: suicídio e depressão.

Herdas dos teus pais e do teu povo
Tuas fortunas, doenças e guerras.
As lembranças estão no olhar,
Não na memória que se faz tempo.

Herdas do Livro outros livros
Que o primeiro a ser lido é o que vicia.

Bebes teus vinhos, amas tuas crias,
Assim também avanças através do Livro.
Oh Perdedor! Oh Perdedor!

Guerreiro, saberás de tuas derrotas
Nas páginas do Livro, nunca de tuas vitórias.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O PRIMEIRO LIVRO



Choras, lava tua alma
Inspira, respira, alimenta tuas dores.

No princípio Deus criou os céus e a terra
E o primeiro Livro.

E o Livro não se fez carne
para não apodrecer, mas, verbos
e mármores que antecedem escuros.

Tratas com carinho suas páginas
Que as promessas futuras se farão presentes.
Sombras se mostrarão nos caminhos.

És viajante, portanto estrangeiro,
Não te fia nos homens, mas no Livro
na pele, no tato, nas reminiscências.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

RECEITA PARA UMA VIDA DIGNA

Uma pitada, bem caprichada, de sorte.
Não passar fome na infância.
Ter a possibilidade de estudar.
Poder trabalhar.
Descobrir os poderes mágicos dos livros.
Esbarar nos amigos que estão espalhados por aí a nossa procura.
Encontrar quem te bote no bom caminho do álcool.
Descobrir o sexo que é o alimento do prazer.
Ter olhares e sorrisos para as ruas, para o povo.
Descobrir que a desigualdade e a injustiça andam juntas de mãos dadas.
Identificar os inimigos que pode ser a própria justiça.
Torna-se poeta ou qualquer outro tipo de artista,
inclusive aqueles que admiram e se emocionam.
Entender que a luta também pode ser armada.
Esperar o momento certo da luta, sem medo algum da morte,
que pode não acontecer no curto espaço da nossa vida,
e, por isso, plantar e regar sempre a semente da revolução.

quinta-feira, 11 de junho de 2020


Dá-me um pouco da tua fé
Uma metade de teu grão de mostarda.
Coloca esta metade em minha mão
E a transforma em espada.

Armado sou um comandante conquistador
E tu minha amada
(ou minha escrava).
Espada em riste mato meu prazer
E o teu prazer será minha grande conquista.

Em nome dos teus deuses
Minha espada os destruirá
E à violência da fé. 

quinta-feira, 4 de junho de 2020

PARA QUE POEMA?

Afinal,
para que serve o poema?
Não sacia a sede
nem mata a fome.
Não serve de moeda de troca
ou de arma para a guerrilha.
Para que serve a vida
ou o beijo na namorada de infância?
O poema, nu,
em folha branca, é prazeroso
E despe-se para os olhos
de quem o procura.
Rasga o véu dos sonhos
e sedimenta-se em palavras.