não com a essência da alma,
mas com matéria do corpo
aquela que apodrece.
O tempo lambeu-me.
De repente tinha dezoito anos,
daqui a pouco trinta e seis,
dormi, e ao acordar,
fiz cinquenta e dois.
Ah! Esta matemática divina.
O cheiro de canela da morte.
As amizades de fumaça.
Um canto que não consigo identificar.
Sais, preciso de sais,
meu corpo lasso,
minh'alma inexistente,
todos os meus pesadelos.
O espelho não mostra os meus desejos,
apenas as minha frustrações.
A fome, a guerra.
O sexo insaciável,
apesar da velhice,
do ridículo.
Incenso de cannabis,
orgasmos múltiplos,
música e lembranças:
eis o poema!
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
quinta-feira, 10 de janeiro de 2019
CINQUENTA E DOIS ANOS
e trinta e três de trabalhos
alienantes
- cumprindo pena no capitalismo -
quero apenas, antes da
indesejada,
a minha aposentadoria,
um bom litro de uísque e gelo
e a voz de Billie Holiday...
quinta-feira, 3 de janeiro de 2019
CRIANÇA
Escuta!!!
Estou
acostumado a falar sem ser ouvido.
Retira
o meu poema do seu umbigo.
Coloca-o
na linha azul pontilhada.
Disfarça!
Espere
que ele sorria e crie coragem.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2018
PARA SE TORNAR POETA
Às
mulheres de Kobane:
Perdoem-me
pela minha covarde ausência.
Beber umas piscinas olímpicas de
uísque,
outras de vinho e algumas de
vodka.
Como vivemos num país tropical,
amamos o mar e as tangas: beber,
um oceano de cerveja, apenas para
hidratar.
Ter amigos que adorem a noite, a
amizade e a magia.
Algum deles, com certeza, devem
tocar violão
e que todos cantem e dancem a
Baco e a Eros.
Conhecer o amor, a paixão e a sua
ausência:
a dor da solidão.
Trair e ser traído,
- quem não o foi, que atire a
primeira garrafa vazia? –
mas, nunca, mesmo diante da
morte, ser desleal.
Perceber que o sexo é tão puro
quanto ser criança;
uma nuvem de Szymborska
ou uma carreira de cocaína.
Amar e malamar, amar, desamar,
amar,
- não é, Drummond? -
os amigos, os amantes, os poemas,
os poetas, os perdedores, os
alcoólatras, as putas,
os viados, os aleijados, os
oprimidos...
Não apenas, mas principalmente
estes.
Nunca desistir do amor,
pois, que sem ele, o poeta trava,
enferruja,
torna-se burguês:
e o poema passa a usar paletó e
gravata italiana,
sob o sol escaldante do verão
nordestino.
Compreender que o dinheiro é um
deus cruel e poderoso.
Buscar a verdade que é o caminho
certo do ateísmo,
que é o caminho certo da
libertação.
Mas, se quiser crer num Deus,
que ele seja feito a imagem e
semelhança do oprimido.
Ser íntimo dos poetas mortos em
suas estantes,
em seus livros, em seu coração.
E dos vivos em sua cama.
Enfim, viver, intensa e
apaixonadamente.
Que o poema seja a tradução da
vida.
E o seu fazer, o seu lapidar,
a tradução da luta pela liberdade
e pela igualdade,
com as armas que nos oferecerem o
nosso tempo.
Não é mesmo, Che?
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
TEIMOSIA
Cometo alguns poemas.
Não sei se os mesmos têm algum
valor literário,
mas eles insistem em nascer.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
GALHOS
Tenho
vergonha do meu corpo nu.
primeiro
a pólio,
depois
a velhice.
Em
breve não terei vergonha de nada.
Galhos,
uma serpente negra.
Dança
como a alma de um poeta aleijado desejaria andar.
Deusa?
Não, mulher, artista,
habitando
entre a realidade e a magia.
Tenho
vergonha da minha vergonha.
Vergonha
de sonhar qual um groupie:
Maria
Clara, Twings...
Será
que nunca vou amadurecer?
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
BRIGITTE BARDOT
Encontrar
uma lâmpada mágica
numa
loja de antiguidades
na
minha cidade da infância.
Implorar
ao gênio moreno
um
único desejo apenas,
ao
invés dos três oferecidos:
acordar
no colo quente e macio da Brigitte Bardot!
O
melhor dos sonhos
é
sempre um grande pesadelo,
quando
imaginamos que são reais
os
momentos mais loucos dos beijos:
despertar
sem o ardor da boca vermelha da Brigitte Bardot.
Cientistas
loucos,
escritores
de utopias e distopias
clamo
do alto dos meus mais sinceros desejos:
inventem
logo a máquina de viajar no tempo
quero
voltar aos braços de Juliette
e, velho ridículo,
rever
urgentemente os pés desnudos da Brigitte Bardot.
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