quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

RECIFE, BRASIL


                                  
Alta noite:
bocejam as estrelas.

Penetrando já a madrugada,
o sol inquieto desperta.

E a insônia,
minha atual e fiel companheira,
exige-me todas as atenções.

Nestes momentos
em que o corpo irritadiço e cansado
luta contra si mesmo
à espera dos louros do sono,
meu espírito e mente vagam
em voo alto em direção à tua lembrança. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DESEJOS


Desejar avidamente
outra vida, outra oportunidade
é voltar às origens;
escancavilhar os baús,
ou diria melhor, as esperanças;
é superar o cansativo caos;
a íngreme escalada,
a luz, o sono, o sonho.

Tudo isso antes de chegar ao fundo,
ao grande vazio da queda,
à esperança abortada, à morte.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

CONQUISTA


Primeiro espreito-a, de longe,
folha branca sobre a mesa,
feito neve,
pele macia de mulher.

Depois,
a caneta deixada ao seu lado,
como quem não quer nada,
displicentemente.

Em outro momento,
a caneta já à mão,
o olhar sobre a folha em branco
se aprofunda, impaciente, ansioso.

Inquietante,
a mente busca decifrar
em sua brancura
as formas do poema.

Aos poucos o poema nasce:
primeiro a ideia, depois as palavras,
as frases, as estrofes.

E o poema alegra a folha
e a vida do poeta,
da mesma maneira que um filho
alegra a família
ou a morte a alma prisioneira.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

QUE TUA BOCA SEJA


Que tua boca seja,
para mim, taça.

Que tua saliva seja,
para mim, álcool e ópio.

Que o teu ventre
me sirva de casa.

Que o teu útero traga-me a eternidade
através do filho que te depositarei.

Semente de índio e negro
(como detesto a minha herança branca europeia).

E eu, amada, em troca serei teu escravo,
teu objeto, tua espada.

Servir-te-ei, exclusivamente,
até a morte.

O teu prazer
será a minha busca eterna.

Em minhas mãos,
mesmo que já fracas pela velhice,

encontrarás as armas que te defenderão
por toda a eternidade.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A ONÇA


Ao amanhecer,
mal despertando os meus olhos,
vejo ao meu lado, à cama,
a onça pintada com presas de marfim
e seu olhar de fera.
Seu nome: Solidão.

Após o café,
indo ao trabalho,
sinal vermelho,
a onça e seu olhar de fera
implora-me uma moeda.
Seu nome: Injustiça.

À noite, em sonhos ou em vigília,
A onça e seu olhar de fera
insiste em visitar-me.
Seu nome: Desesperança. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O TÉDIO

Autor?


Primeiro beijei tua boca
e acariciei tuas mãos,
nos tornamos amigos e amantes.

Uns tempos depois,
minhas mãos passeavam em teus seios,
macias elevações de carne, pele e desejos,
qual o viajante que percorre caminhos conhecidos.

Mas o tempo,
este destruidor de sonhos
e calmante dos desejos,
pôs em nossos destinos o tédio.

Hoje, tua boca, tuas mãos,
teus seios e meu desejo
são apenas lembranças enfadonhas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

CRIAÇÃO DO POEMA


Da inspiração,
após vencida a preguiça e a rotina,
vem o borrão.

A inspiração é um insight,
uma ideia, um relâmpago
que fotografa através da memória,
no papel, letra corrida,
o corpo do poema.

Próximo passo: a gaveta.
Que o poema amadureça.

Após a emoção:
o trabalho, a lapidação.

A inspiração cria o poema,
como a natureza o diamante.
O trabalho lapida o poema,
como a mão a pedra.