sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

CARRO USADO


Animal?
Monstro sanguinário?
Ou parasita que me suga
todo o humor,
a paciência e o salário?


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

DO POEMA

Às vezes vem rápido
o poema,
como avião, raio,
infarto.

Outras vezes
dá trabalho
feito um parto
a fórceps.       


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

ODE AO NOSSO (IM)PROVÁVEL FIM


A radiação atômica
é como um comichão
ou uma língua invisível
que vai-nos lambendo,
por fora e por dentro,
até o momento
em que somos apenas
uma ideia.


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

NA ROTINA DAS MANHÃS

Na rotina das manhãs,
       o mesmo rosto no espelho,
       o mesmo jato de urina,
       o mesmo cheiro.

O pão, a manteiga, o café.
O mesmo poema cansado,
o mesmo livro debaixo do braço,
a mesma vontade matinal de ir ao banheiro.

No amor mal feito,
       no desejo esquecido na esquina,
       no grito – de gol? – amarrado no peito,
       na dose de estricnina – para o amante ou o rato?

Na carne estragada na geladeira,
       no copo de cerveja quente,
       no sol que racha minha cabeça,
       no tempo perdido na máquina batendo um ofício


ao Exmo. Sr. Filho da Puta,
       no romance não lido de Loyola
       na solidão sempre lembrada e eterna
- Deus?

Caminho – inútil caminhar? – homem metafísico
       através da manhã e do poema,
       entre o ser genético e seus códigos
       e o ser divino e o horror da eternidade.

domingo, 28 de dezembro de 2014

REFLEXO NO ESPELHO OU ITINERÁRIO PARA UM DESCONHECIMENTO


O meu quarto são quatro paredes brancas

me refugio.

fora, os ruídos,
as inacabáveis batalhas pela vida.

Eu continuo ferido,
enquanto a morte não vem.

Lembranças da infância cada vez mais nebulosas
e distantes.

A fumaça do cigarro do homem
que está ao meu lado,
nesta gravura na parede,
incomoda-me os pulmões.

Repetem-se os sons
como a repetição da vida,
nas tempestades de ânimos em que se afundam
meus navios.

Busco-me
- como busca o sol a trepadeira,
minha língua, tua língua,
o suicídio, o aposentado –
nos meus livros empoeirados
como um mágico à fantasia de espelhos,
noites, beijos e bombas,
sons, cores e seres.


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A CARNE

Khalil Gibran

Paixões da carne a queimar feito o fogo da Inquisição,
feito as bombas de napalm nos Vietnãs.

Teu corpo aberto no meu corpo,
dois corpos e um só dono desejo.

Noites,
lembranças,
teu cheiro,
insônia, copos de vinho barato
e essa música de violino que nada me lembra ou diz.

Carnes frescas e frias
como a desse bife sangrando
ou as tuas carnes febris e tensas
como fios elétricos, choques
e descargas.

O amor em teu corpo de formas enxutas
e essa toalha de feltro
pendurada na parede no banheiro.