quinta-feira, 15 de março de 2018

EM PRIMEIRO LUGAR O SEXO!

 

"É de se apostar que toda ideia pública, 
toda convenção aceita seja uma tolice, 
pois se tornou conveniente à maioria."
(Edgar Allan Poe)

Em primeiro lugar o sexo!
É para isso que existimos,
legar a outro animal
o nosso código genético.

Mas através da moral
fingimos não entender
nosso simples destino
e criamos mitos.

O resto são costumes...

quinta-feira, 8 de março de 2018

FRUSTRAÇÕES, O POEMA



 “Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”
(Darcy Ribeiro)

Não ter nascido lindo feito Elvis Presley ou Marlon Brando
não ter feito uma canção com Chico Buarque ou com Bob Dylan
não ter as pernas da Isadora Duncan ou as do Maradona
nem a habilidade de um Garrincha, de um Heraldo do Monte.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter namorado a Marilyn Monroe ou a Audrey Hepburn
não ter sido amado pela Lucélia Santos ou pela Débora Bloch
não ter a voz de Cauby Peixoto nem a de Elis Regina
não ter a poesia de Manuel Bandeira, de Mario Quintana ou de Carlos Maia.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter lutado na guerra civil espanhola
nem ter morrido ao lado de Che na Bolívia
não conseguir beber tanto quanto o Jaguar ou o Erickson Luna
não ter tanto amores e amigos como o Vinícius de Moraes
Ou o Adriel Evangelista.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter o humor de um Groucho Marx ou de um JJ
não ter a inteligência nem o conhecimento de Nietzsche ou de Chico Pena Branca
não ter trabalhado em Hair ou em A Doce Vida
não ter escrito Dom Casmurro nem Cem Anos de Solidão.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter batido os recordes de João do Pulo ou de UsainBolt, mesmo sem as pernas 
nem ter sido um talento político à moda de Brizola ou de Darcy Ribeiro
não ter sido um professor ou jornalista, mas apenas um pequeno burocrata de oitava categoria e enfadado
nunca ter jogado uma pelada nas areias da praia de Gaibu ou dançado no Clube das Pás sábado à noite de sapato branco.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter sido ignorado pelo vírus da pólio nem pelo terror da depressão
não ter viajado a Cuba ou a Pasárgada
não ter sido abortado ou nem mesmo concebido
não ter nascido alienado, parvo, burro.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ser um porco, um cavalo ou um passarinho
não ter a defesa dos espinhos ou cheiro das flores
nunca ter sido água, ar, terra ou fogo, cigano ou palestino
não ter sido nada, nunca ter existido, nunca ter respirado.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

quinta-feira, 1 de março de 2018

CEIA



Por que não sentamos à mesa
e dividimos o mesmo pão,
ao invés de nos matarmos,
cada vez mais, e cruelmente,
por um punhado de ouro,
por um poço de petróleo?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

TOURADA



Sorridente e tensa,
arco ao lançar a flecha,
que nunca mais voltará;
touro a enfrentar
a morte na arena,
tenso,
corda de violão ao romper o som,
lanças do cruel toureiro.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O GOZO E AS BORBOLETAS



De sua vagina,
quente, úmida e misteriosa,
quando me abria as pernas
paixões, medos e segredos mútuos:

saíam confissões, relaxos,
borboletas e orgasmos,
e um líquido branco sem cheiro,
que, entre risos, abraços e juras,
chamávamos tesão.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A VELHICE



A pior coisa que existe,
num mundo criado por um deus guerreiro
e humanos sanguinários,
poderia ser a dor física, apenas,
a flecha penetrando a carne viva,
que sangra, uiva e grita.

A fome seria outra possibilidade,
pois é inexprimível o suplício do faminto;
do sedento: da sede de água, de justiça,
de igualdade, da sede do socialismo.

A pior dor que o deus guerreiro
dos cristãos legou ao mundo,
tinha que ser uma dor suprema,
indivisível, inimaginável, única, nunca sentida.
Por ser provocada pelo símbolo do amor,
da carência, da vaidade, das iniquidades,
uma dor que não consta dos livros sagrados
dos túmulos caiados, uma dor: A dor.

Qual ser, qual programa, qual matriz,
qual irrealidade
conspira para que nossos cérebros
sejam inimigos do nosso existir?

Nada, nada, nada, nenhum bálsamo,
nenhum médico, nenhum alquimista                 
nem feiticeiro,
descobrirá a essência da maldade
deste ser tão pusilânime.

A maior dor que um
pode cravar sobre outro ser,
Além de uma estaca no peito,
é a consciência do existir?
Sofro, logo existo;
desejo, logo sofro.

Nada é sonho,
nada é pesadelo
do qual possamos acordar
e sorrir: era tudo brincadeira!

Nada é mais vil e mais cômico,
mais devastador do que a velhice,
seus achaques, suas dores, o ridículo.
A velhice e a sua impossibilidade
de ser, de amar, de decidir
o que não lhe é, sadicamente, permitido.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

MINHA INFÂNCIA

 

Meus sonhos eram povoados
por lobos maus e padres
que comiam criancinhas,
mas minha mãe de criação, Lia,
contava estórias para eu, minino, dormir.
Coçava minhas costas e dizia:
dorme! Lobo mau não vem aqui!
Padre está rezando missa!

Minha avó Lídia penteava meus cabelos,
assim que, minino, saia do banho.
Mamãe me achava tão lindo, um rei.
Meu pai me sonhava
juiz ou médico, autoridade.
O mundo era enorme,
minha casa imensa,
a rua sem fim:
transbordavam-me os sonhos!