sexta-feira, 14 de agosto de 2015

TESTAMENTO


Aos que tu herdares,
estes herdarão as tuas palavras,
as tuas palavras de ira e de docilidade.

Herdarão as tuas mulheres,
os teus castelos,
os teus desejos,
as tuas virtudes e os defeitos.

Herdarão as tuas guerras e a tua paz.

Herdarão teus caminhos de ida
e teus caminhos de volta.

Herdarão tuas tradições,
teus pecados,
teus deuses.

Serão o teu reflexo no espelho eterno.

Aos que tu deserdares
e aos bastardos,
a estes restarão cultivar a revolta,
e estes modificarão o mundo.

Serão como uma pedra atirada contra o espelho eterno.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A PALAVRA, O POEMA


A palavra como o poema
te engravida, independente das estações,
como qualquer ser engravida,
como a barata imunda
ou a mulher bela de faces de seda.

A semente é a vida
com suas dores,
       seus destinos traçados
       por homens.

O fruto é a luta
- por que aceitar o sofrimento
       como um dom divino? –
expulsa do teu ventre as palavras,
assim nasce o poema
             que se dá ao povo.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

POÉTICA IV


Não há mais clima para o Poema-Amor.

O momento é para cantar a vida,
o Poema-Vida,
e a vida é miséria e injustiças,
e mais miséria e torturas.

O momento é para o Poema-Verdade,
e a verdade
é esse país de famintos.

Não há mais clima para o Poema-Alegria,
o momento é para o Poema-Mágoa,
para o Poema-Tédio, o Poema-Murro.

O clima é para o Poema-Luta.

Abaixo o Poema-Poema!


sexta-feira, 24 de julho de 2015

EIS QUE VENHO SOLTO

Van Gogh

Eis que venho solto
vida adentro, ventre
com meus braços largos
num gesto tímido mas sincero.

Eis que o vento sopra
entre o mormaço quente
e a fria ausência
traspassando lento e sempre.

Eis que se anuncia o fim,
badaladas, acenos, lenços
e as paixões já resfriadas
cavalgam de leve as planícies.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

DECLARAÇÃO


Só um porre para esquecer
a falta de lua
e a distância do teu corpo,
como as distantes estrelas
       em mutações.

Só um porre para esquecer
que entre mim e ti
há uma infinidade de razões
       medievais.

Que morra a inteligência
       e a razão.

Só tu e teu sexo.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O ESPELHO


Dispersos, caminhávamos de mãos dadas,
outras vezes apenas o olhar nos reunia.

O meu coração era como a mão do guerreiro,
eras tu a minha arma.

O guerreiro ama a sua arma
como um deus à sua criatura.

Eu te moldara dispersa,
por isso amavas o silêncio na sua essência
e nos seus mais vulgares momentos.

Dispersos,
caminhávamos livres, como se fôssemos
o fogo,
eternos como o pássaro fênix.

As tardes e seus tédios
não nos pertenciam,
tal a Via Láctea. 

Um dia paramos
e nos vimos defronte do Espelho
qual o Livro da Verdade.

Hoje as minhas mãos não tocam as tuas.

Oh pesadelo a existência!


sexta-feira, 3 de julho de 2015

NOITE


Do alto dos seus óculos
me olha meu avô
- seus olhos me perseguem
como os da Monalisa –
desse velho retrato na parede.

Minha avó em sua cama
dorme, com seus setenta anos,
um sono de criança.

Contemplá-los
é como assistir a um filme
em preto e branco,
quando  se sabem velhos
os heróis que se amam
com os corpos e corações.